Crônicas

Sem frases motivacionais daqui pra frente

Não sei se vocês já repararam, mas, depois dos 40, o mundo parece decretar: “Pronto, acabou o estoque de incentivos”. Aos 20, todo mundo te empurra pra frente — “Estuda! Viaja! Conquista o mundo!”. Aos 30, ainda rola um “Vai lá, compra a casa, casa, tenha filhos”. Mas aos 40? Silêncio radioativo. 

É como se a sociedade tivesse investido tudo em você e agora só contasse os prejuízos. “Já casou, já doutorou, pós-doutorou, comprou o carro, a casa na praia, aprendeu três idiomas. E agora? Desiste, vai”. Ninguém mais te motiva a recomeçar. Ninguém diz: “Ei, e aquele sonho engavetado? Corre atrás!”. Aos 40, você vira um capítulo fechado no livro alheio. 

Só muito tempo depois eu parei e pensei: espera aí, onde foram parar aquelas frases motivacionais que eu ouvia tanto aos 20? “Cara, você consegue! Não desiste, não! Você ainda tem muito tempo pela frente. Tem muitos amores pra você viver ainda. Aprende um quarto idioma, por que não? Você consegue, você é novo, inteligente! Para de sofrer por este ingrato, é essa ingrata. Vai viajar o mundo!”.

Mas o que muda — e o que torna essa fase fascinante — é que você só conta com você mesmo. Precisa encontrar seus próprios motivos pra levantar da cama de manhã. Precisa ser um pouco maluco, porque a felicidade depois dos 40 é uma espécie de maluquice. Se encontrar simplesmente aquilo que te faz feliz e correr atrás. Nessa idade, se for esperar alguém empurrando, a gente nem sai da cama. Aquelas frases bonitinhas — “Você consegue, você chega lá” — param quando você faz 30.

Eu olho pros lados e vejo amigos fingindo contentamento, mas no fundo é um vazio quieto. Onde foram parar aqueles “você consegue”? Talvez a gente precise se incentivar sozinho agora. Ou quem sabe inventar nossos próprios troféus — um idioma novo aos 45, uma viagem maluca aos 50. Porque parar de ser incentivado não significa parar de voar.

Leandro Alves

Leandro Alves é mineiro. Formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Como cronista, participou do Jornal Porta Voz de Venda Nova, criou o blog Preciso De Uma Crônica, além de ter publicado também no site OperaMundi. Cinéfilo apaixonado pelo cinema brasileiro, pela MPB, por poesia, Carnaval, sem falar em ler seus cronistas preferidos como Rubem Braga, Carlinhos de Oliveira, Martha Medeiros e Affonso Romano de Sant'anna.

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